Todo modismo será esquecido. Cuidado!

Já ouviu falar de ativação de marca e ficou pensando – “mas isso não é promoção?” Ou ouviu alguém dizer “essa ideia é disruptiva” e logo em seguida se lembrou que dois anos atrás outra marca fez algo parecido? Aliás, já contou a quantidade de vezes que seus colegas, clientes e veículos (que atualmente são “publishers”) citaram essa palavrinha incrível e muito mal-usada?

Ou então acompanhou clientes ou agências inovarem criando estratégias “diferenciadas” para trabalhar com Influencers e, por sinal, se deu conta que celebridade sempre foi um influencer, que cantor de rádio sempre foi um influencer, que colunista de moda sempre foi um influencer, que escritor sempre foi um influencer… e por aí vai.

E por falar em influencer, você achou que sabia tudo sobre relações públicas e de repente inventaram o PR 2.0 (ficou com dor de cabeça e pensou em voltar aos bancos da pós-graduação?). Então, subitamente parou alguns minutos e se conscientizou que relações públicas continua sendo o que era, só que agora impulsionada pelo digital.

Por acaso pronunciou digital em inglês mesmo falando com um colega no bom e velho português? E só para lembrar a grafia é a mesma e a pronúncia é, também, quase igual, mas convenhamos que em inglês parece mais “bacana”.

E dá última vez que foi a agência e escutou na apresentação da campanha os criativos comentarem que a tagline da campanha era X? E aí caiu a ficha que eles estavam falando do querido slogan ou de uma simples assinatura de campanha.

O melhor mesmo é quando te “convidam” para um treinamento intenso (leia-se – uma super “imersão” ou um webinar) em uma nova metodologia para despertar seu lado criativo e organizar suas ideias chamada “mind map” e durante essa genial e disruptiva imersão você lembrou que rascunhava dessa forma no caderno quando era criança.

Outro treinamento maravilhoso é o Design Think (claro que tem seus méritos), que promete soluções incríveis e extremamente diferenciadas para grandes problemas. Foi fazer o bendito treinamento e parou assustado pensando: “ué, será que ninguém se deu conta que juntaram um monte de coisa em um só lugar, afinal brainstorming a gente sempre fez”, mas está certo que agora a gente usa post-it de diferentes cores (muito mais divertido – eu acho).

Enfim, os modismos são mesmo um vício na área de marketing e publicidade, a gente se prende a coisas extremamente “inovadoras” sem antes entender de onde vieram e baseadas em que elas estão.

Inovação é uma necessidade da vida, da própria existência, porque só a inovação nos permite agir e estar de outra forma em relação aquilo que passamos. Claro que para as organizações a inovação, também, é uma necessidade, haja visto que os mercados acirrados nos quais se encontram exigem constantemente mudanças significativas e que possam gerar lucro.

No entanto, o grande problema dos modismos é o de ter a frente uma bebida deliciosa, super cara e bebericar apenas a espuma, sem apreciar corretamente o sabor, a textura e os diversos “blends” (confesso que eu gosto de alguns modismos sim).

Em um mercado novidadeiro (como diria minha sócia) as organizações, marcas e os profissionais correm o risco de se manter na superfície e não compreender com profundidade, seriedade e intensidade as ramificações históricas e contextuais dos problemas que enfrentam – vemos regularmente esse tipo de problema em campanhas publicitárias, que continuam pecando por replicar visões misóginas, homofóbicas, racistas e outras tantas que já não deveriam mais fazer parte de quem somos, muito menos do que fazemos.

Portanto, abrace as novidades, mas não se esqueça do contexto e da história.

Dr. Fábio Caim – publicitário, psicanalista e sócio da Objeto Dinâmico – inteligência de marcas.

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