Relacionamentos Profissionais x Pessoais

Assistindo ao vídeo do sociólogo Zygmund Bauman em que ele discute os laços humanos e as amizades nas redes, eu me deparei com uma questão bastante relevante, que é a construção de relacionamentos no ambiente de trabalho ou mídias sociais.

Bauman, afirma que os laços criados no real, no face a face, exige uma forma de compromisso que exige promessas para o amanhã, implica em contratos firmados onde os dois ou mais sujeitos que se relacionam assumem responsabilidades mútuas. Pode ser a simples responsabilidade de ser fiel à amizade, ou alguma outra mais entrelaçada como a que se espera em casamentos oficiais. O certo é que tais relacionamentos são preenchidos de expectativas.

A associação que Bauman estabelece entre fazer amigos no real e o fazê-los nas mídias sociais tem o mesmo teor da oposição entre comunidade e rede. Comunidade diz respeito a algo a qual o sujeito pertence por ter nascido nela, ou por escolher participar de seus princípios e condutas. Já uma rede estabelece uma série de conexões que podem ser acessadas ou desconectadas com muita facilidade, portanto permeado de um compromisso frágil e superficial.

Você deve ter achado interessante até aqui, mas talvez esteja se perguntando: afinal, o que isso tem a ver com minha carreira?

O que é evidente para todo profissional atualmente é que a rede de contatos, networking, não é apenas uma forma de construção de conhecimento que oferece trocas atualizadas, mas também um jeito de se manter competitivo e potencialmente recolocável quando for necessário. Ou seja, tais redes são fontes interessantes de informação e devem ser incentivadas e geridas com respeito e transparência, porém elas não são base para compromissos aprofundados.

Os compromissos mais aprofundados, enraizados em sentimentos saudáveis e fraternos, devem ser estabelecidos com seus familiares e amigos. Ter uma noção clara das diferenças destas dimensões, com certeza, pode contribuir com uma gestão menos pesarosa da vida profissional.

Entender quais tipos de compromissos podem ser mantidos nas dimensões profissional e pessoal contribui para a adequação das expectativas em relação a ambos. Por exemplo, isso evitaria comentários como este que já escutei algumas vezes – “O fulano que trabalha comigo não me chamou para a festa de aniversário do seu filho”.

Normalmente, quando escuto um comentário desses minha resposta é simples: você não foi convidado porque não é parte da família, ou parte do rol de amigos, você provavelmente é somente colega de trabalho.

Cruel? Não, apenas verdadeiro.

E para deixar claro: é saudável ter colegas de trabalho que não sejam seus amigos.

O mesmo se aplica para fotos que vemos em redes sociais de alguns colegas comemorando datas importantes e, por mais estranho que pareça, acabamos nos sentindo incomodados de não termos sido convidados. Novamente, é saudável ser apenas colega!

É claro que há um potencial criativo nas redes, que podem ser usadas para melhorar nossa atividade profissional, por meio de relacionamentos construtivos. Por isso mesmo, redes profissionais devem ser usadas para valorizar competências, para melhorar atividades, para crescer profissionalmente e não para revelar intimidades. Intimidade é uma construção e uma conquista, que normalmente reservamos às pessoas mais próximas.

Use suas redes profissionais estrategicamente (para criar e consolidar seu #personalbranding), comente e poste assuntos de relevância para sua atividade profissional que contribuam com a construção da sua carreira. Além disso, filtre seus contatos. Nem toda solicitação nova deve ser aceita já que a rede, que estamos discutindo neste artigo, tem como foco assuntos profissionais.

Concluindo, não há nenhum problema que suas relações profissionais não sejam tão profundas, quanto suas relações pessoais. A rede pode e deve ser usada para a manutenção de contatos que qualitativamente possam agregar diferenciais à sua carreira, por isso não confunda as dimensões: intimidade é para os íntimos; profissionalismo é para com os colegas.

Fábio Caim | Doutor em Comunicação e Semiótica, Publicitário e Psicanalista | sócio-proprietário da Objeto Dinâmico – inteligência de marca | fabiocaim@uol.com.br

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